Por Renato Casagrande, especial para Jovem Pan (22/03/2021)

Banco Mundial publicou recentemente um relatório que apresenta uma situação trágica a respeito da educação brasileira, devido ao fechamento prolongado das escolas em função da pandemia da Covid-19. O relatório aponta que o Brasil pode ter 70% das crianças do ensino fundamental sem a habilidade de conseguir ler e compreender um texto simples. Esses números vão ao encontro de muitos estudos que estão sendo feitos em todo o país sobre o comprometimento da aprendizagem das crianças durante a pandemia, principalmente as mais pobres e vulneráveis. Todas essas pesquisas nos mostram que estamos vivendo um dos piores momentos na educação brasileira.

Já lemos e ouvimos bastante sobre a falta de condições de muitas escolas públicas para implantar o ensino remoto com o mínimo de qualidade, e as dificuldades que as famílias estão enfrentando com as crianças em casa. Boa parcela dos alunos está, quando possível, tendo um ensino sofrível, que tem provado não só a crise na aprendizagem, como também trazido uma grande desmotivação, acarretando no abandono escolar. É urgente que seja implantado no Brasil um programa nacional em prol da educação no enfrentamento da pandemia, que precisa preparar os professores e adequar as escolas para a implantação da educação híbrida, com uma abertura gradual das atividades presenciais, complementadas com atividades remotas. Para isso, é fundamental investir na infraestrutura de água e saneamento, equipamentos e protocolos de proteção sanitária. Passados 12 meses desde o início da pandemia, muitas escolas ainda não apresentam condições mínimas de funcionamento, colocando professores e alunos em risco, caso se optasse pela abertura dessas instituições de ensino.

Ao mesmo tempo que adiamos esses investimentos, estamos condenando uma boa parcela das crianças, principalmente as mais pobres, a terem um futuro triste e desolador. Como poderão competir no futuro com outros cidadãos do mundo que estão tendo as melhores condições para a sua aprendizagem? É claro que esse não é um problema novo e decorrente da pandemia. Muitas crianças já não estavam aprendendo na escola o mínimo esperado. Já estávamos em crise e em situação de emergência. Estamos alertando que esse problema, que era grave, está se tornando gravíssimo, com a falta de acesso ao aprendizado, que também é imensamente desigual. 

Vivemos um dos piores momentos da história da educação brasileira. É uma marca, uma experiência que ficará na vida dos alunos e professores para sempre. A crise poderia ser ainda muito maior se não houvesse o comprometimento dos professores que, mesmo longe das condições ideais, romperam, em curto espaço de tempo, barreiras, preconceitos e resistências e adentraram-se no mundo digital. Transformaram suas casas numa extensão da sala de aula. Compraram com recursos próprios equipamentos, mesmo de qualidade sofrível (em função do custo) para não deixarem que a aprendizagem dos alunos parasse. Transformaram-se em docentes digitais e estão trabalhando diuturnamente para manter acesa a chama da educação

Infelizmente, esse movimento dos professores não é universal. Muitos não estão conseguindo se ajustar ao novo padrão de educação. Temos professores totalmente analógicos que apresentam muitas dificuldades de lidar com as novas tecnologias. Outros que não têm condições de investir em equipamentos e nem têm uma internet com qualidade mínima para uma boa transmissão. Sempre é bom lembrar que o professor, mesmo com nível superior, ganha muito menos do que outros profissionais com a mesma escolaridade. Associado a esses problemas, pode-se dizer que o impacto da pandemia é devastador na vida dos alunos, quando analisamos suas residências, que estão muito distantes de favorecer um bom aprendizado. São pequenas residências onde moram muitas pessoas e com cômodos que não contribuem para a concentração e as mínimas condições de aprendizado. Além desse problema, temos os pais dessas crianças, que na maioria das vezes se sentem incapazes de colaborar com esse aprendizado. Sempre é bom lembrar que, geralmente, são esses pais que não têm nem o ensino fundamental completo, o que os inibe de participar de forma mais ativa no desenvolvimento educacional dos seus filhos.

Professores com sérias dificuldades, residências e famílias sem as mínimas condições de oferecer um ambiente de aprendizado, crianças sem acesso à internet e sem equipamentos adequados, escolas sem infraestrutura tecnológica para dar conta desse novo desafio e um Brasil sem uma grande liderança educacional. Tudo isso nos leva a pedir socorro. Senhores políticos, por favor, corram contra o tempo. Cada dia que perdemos precisaremos de três para recuperar. Não podemos perder nem mais um dia sequer. Precisamos adotar imediatamente um programa de educação nacional para enfrentamento da pandemia, pensando em alcançar todos os alunos. É o futuro do Brasil que clama pela sensibilidade de todos os senhores. 

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

O texto original foi publicado pelo jornal Jovem Pan, disponível em:
https://www.gazetadopovo.com.br/parana/aulas-presenciais-rede-privada-ampliam-desigualdade-rede-publica/

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