Por Renato Casagrande, especial para Jovem Pan (03/05/2021)

Quando o tema homeschooling volta à tona, com discursos enfáticos de que é o melhor para a criança, recordo-me do depoimento dado por uma professora em uma das palestras que proferi em uma cidade do interior do Brasil. A professora assustada e em crise de pânico relatou que foi ameaçada por denunciar um caso de violência sexual contra uma das suas alunas, que na época tinha menos de 10 anos de idade. O fato só chegou ao conhecimento das autoridades por meio da escola, ou seja, a aluna confidenciou seu problema à professora, muitas vezes a única pessoa a quem ela poderia pedir socorro naquele momento.

Começo minha reflexão com essa história para lembrar que vivemos tempos difíceis. Agora em meio à crise da pandemia, o tema do homeschooling ganhou força, pois a escola obrigou-se a oferecer o ensino remoto ou a educação híbrida, já que, devido ao cenário atual, não houve possibilidade da oferta da educação na modalidade presencial.

Primeiro, precisamos lembrar que mais de 80% das crianças brasileiras estudam em escola pública e que uma parcela significativa dos pais dessas crianças não tem sequer o ensino fundamental completo. Ora, estamos então regulamentando uma educação para as classes mais privilegiadas?

A LDB, no artigo 52, deixa claro que as crianças precisam ter aulas com professores com formação superior em cursos de licenciatura, ou seja, em cursos preparatórios para o magistério. Diante disso, considerar que os pais estão preparados e aptos para atuarem como professores seria desconsiderar toda a formação dos professores, que por mais precária que seja é voltada para o preparo do profissional para trabalhar com a formação de crianças e adolescentes.

Outro ponto crítico é que além da falta de conhecimento formal da maioria dos pais ou responsáveis no que tange à formação do aluno, temos um fator preponderante contra essa modalidade de ensino: a necessidade de convívio do aluno com a sociedade e com a comunidade. Muito além dos vizinhos e familiares, a criança precisa se comunicar com outras crianças que tenham uma formação diferente, crenças diferentes, pensamentos e ideologias diferentes para que ela possa desenvolver seu pensamento crítico e complexo e, assim, transformar-se em um cidadão mais consciente e preparado para lidar com os desafios e demandas futuras.

Dessa forma, é importante que a criança tenha contato e estabeleça diálogos com pessoas que pensam diferente dos seus pais, para que possa fazer análises mais profundas sobre certas convicções, crenças e valores passados pelos pais e tidos muitas vezes como verdades absolutas.

A pandemia tem nos mostrado que muitas crianças estão adoecendo ou tendo problemas de ordem psicológica por ficarem muito tempo em casa, sem o convívio com colegas na escola e mesmo com os professores, reforçando a importância do espaço escolar, que como é um espaço público possibilita que grande parte de nossas crianças e jovens possam exercitar a sua cidadania. Desenvolvendo a consciência de direitos e deveres, individuais e coletivos, e pela progressiva autonomia e autodisciplina dos alunos.

Outro fator a ser ponderado é que não se pode considerar mais nos dias atuais que a avaliação da aprendizagem de uma criança se dê meramente por provas em datas pré-estabelecidas como pretendem boa parte dos defensores do homeschooling. A avaliação da criança é contínua e precisa de um olhar constante por parte dos professores e responsáveis. Não se trata apenas de obter uma boa avaliação no Enem ou no vestibular. Trata-se de obter uma boa formação para a vida. E a formação para a vida necessita de diversidade.

Embora os defensores da proposta da educação domiciliar e os diferentes projetos de leis que tramitam no Brasil prevejam fiscalizações sobre as famílias e pais que optarem por essa modalidade, sabemos que é extremamente difícil essa fiscalização, o acompanhamento e os controles sobre as atividades que as crianças estejam desenvolvendo, bem como os possíveis abusos que possam vir a sofrer.

É claro que, em muitos lugares ainda temos uma educação sofrível e que precisa urgentemente de medidas e ações severas e profundas para melhorar a qualidade do ensino brasileiro. Também temos problemas quanto à segurança nas escolas, falta de condições estruturais para os professores realizarem uma boa aula, ambiente físico muitas vezes inadequado e incompatível com as necessidades dos alunos e tantos outros obstáculos que impedem uma educação de melhor qualidade. Mas, utilizar esses argumentos para tirar a criança da escola seria o mesmo que blindar nossas casas e carros contra a violência e aceitar passivamente que isso é fato e não pode ser mudado.

Não quero ser taxativo afirmando que não devemos discutir a questão ou até a possibilidade de regulamentar parte da carga horária dos alunos na modalidade homeschooling. No entanto, acho que regulamentar a educação domiciliar, designando que a responsabilidade pela educação formal seja exclusivamente da família, em um momento em que a educação e a vida vivem numa situação de excepcionalidade pode ser um risco muito grande.

Em síntese, temos um quadro com os principais pontos favoráveis e desfavoráveis à prática da educação domiciliar ou homeschooling no Brasil.

ARGUMENTOS FAVORÁVEIS ARGUMENTOS DESFAVORÁVEIS
1. Insatisfação da qualidade do ensino no Brasil;
2. A liberdade de organização de tempo e espaço dos estudos;
3. Respeito ao ritmo do aluno e garantia de protagonismo da criança;
4. Segurança e conforto;
5. Ideologias políticas e religiosas alinhadas com os pais ou família;
6. Desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como disciplina, organização, estratégias de aprendizagem, autoestima, empreendedorismo, entre outras;
7. Proteção das crianças da prática do bullying e outras pressões sociais inadequadas;
8. Maior convívio familiar.
1.  Ausência do ensino formal adequado;
2.  Falta de socialização e integração das crianças no meio comunitário;
3.  Dificuldade de identificação de abusos e violência doméstica;
4.  Dificuldade nas avaliações de aprendizagem;
5.  Ampliação da segregação social e educacional;
6.  Aumento na evasão escolar;
7.  É uma política para poucos. A maioria das famílias brasileiras não tem condições de aplicar a educação domiciliar;
8.  Agravamento da desvalorização dos professores.

Enfim, acredito que temos muitas demandas e necessidades mais urgentes a serem debatidas e regulamentadas. Precisamos, neste momento, gastar nossa energia para transformar a escola e para promover a inclusão digital de alunos e professores. Precisamos que a escola seja o espaço de cultura, de socialização, de integração, de transformação das pessoas. Precisamos, a partir de uma boa escola, promover a mudança no mundo que tanto desejamos e clamamos, não isolando as crianças do mundo, mas ensinando-as a transformá-lo por meio de integração, da diversidade e da ação coletiva.

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

O texto original foi publicado pelo jornal Jovem Pan, disponível em: https://jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/renato-casagrande/em-tempos-dificeis-para-a-educacao-debate-sobre-homeschooling-ganha-forca-no-brasil.html

1 responder
  1. Ana Maria dos Santos Valentim
    Ana Maria dos Santos Valentim says:

    Adorei esse artigo! É um farol para todos nós educadores, realmente é muito relevante entendermos dessas novas tecnologias, não perder a alma, pois se o professor não tiver sensibilidade para incluir todos os pequenos envolvidos no processo ensino aprendizagem,fica difícil se não planejar,ter empatia , habilidades sócio emocionais.Exige de todos nós determinadas competências , resiliência, perseverança nesse momento tão difícil para todos para termos uma Educação significativa , que funcione bem e de qualidade para todos.

    Responder

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