Por Renato Casagrande

Portugal elevou sua educação às melhores do mundo. Por incrível que pareça, não foi com muito dinheiro, pelo contrário, foi com pouco dinheiro, mas muito empenho. Para nos causar um pouco de inveja (como costumamos dizer ‘invejinha boa”), Portugal conseguiu ficar acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, organização também conhecida como “clube dos ricos”) nos domínios avaliados pelo Pisa: ciências, leitura e matemática, destacando-o como o único país do continente que conseguiu melhorar seu desempenho anualmente.  

A colocação final dos alunos portugueses foi 17º lugar em ciências, 18º em leitura e 22º em matemática – o que tem posicionado o país entre os melhores do mundo.  

Como retratou muito bem a jornalista Carolina Pezzoni, numa matéria da BBC News Brasil, nem mesmo nos períodos mais duros da última grande crise, com a redução de investimentos e o ajuste fiscal imposto pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Central Europeu e pela Comissão Europeia, essa evolução cessou. 

Eu, particularmente, tenho tido a oportunidade nos últimos cinco anos de estar em Portugal uma ou duas vezes por ano, o que de fato me faz constatar in loco essa realidade. E o que explica ou justifica isso? 

Alguns fatos que se destacam é que se há uma receita portuguesa para a evolução na educação, ela passa por trabalhar em conjunto e de forma consistente a organização da sociedade, nos fazendo refletir que as pessoas esquecem-se que educação é muito mais do que escola. É preciso olhar para a escola dentro da educação. 

A partir dos anos 1970, Portugal universalizou o ensino, passando a ter todas as crianças em idade escolar na escola. Isso significa que os pais das crianças que estão hoje na escola são a primeira geração escolarizada, sendo considerado como um dos indicadores de maior influência no rendimento escolar, ou seja, a escolarização dos pais.   

Outra questão que é identificada é que as instituições públicas portuguesas são bem estruturadas, com foco no desempenho dos alunos, espaço para crítica entre colegas e planejamento de atividades de acordo com os resultados. As diferenças estão, por exemplo, mais na importância dada às atividades orientadas à recuperação, na atenção às relações pedagógicas, no apoio individualizado oferecido a cada aluno. 

Mas, nem tudo “são flores” “em Portugal. Apesar de estar entre os melhores do mundo pelo PISA, ainda está distante do desempenho dos sistemas educacionais de referência globais, como Cingapura, Finlândia, Hong Kong, Canadá e Suíça. 

Assim, apesar dos resultados positivos, há consenso de que ainda há muito a melhorar. A recomendação do professor António Gomes Ferreira, diretor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, é ter prudência na leitura dos dados. 

“O Pisa traduz uma boa evolução, mas não uma boa colocação: Portugal está apenas ligeiramente acima da média da OCDE, ocupando um lugar simplesmente mediano”, afirma o professor. No entanto, ele concorda que não é por acaso que o país demonstra avanços no estudo – e que isso merece ser reconhecido. 

No que tange os docentes, há muitas variantes e nenhuma dúvida de que é preciso haver bons professores para haver boas escolas, mas o desafio que preocupa atualmente Portugal é o envelhecimento desta população, transformando num dos grandes problemas a ser enfrentado pelas lideranças educacionais daquele País.  De acordo com a OCDE, apenas 1% dos professores de ensino básico e secundário têm menos de 30 anos e 38% têm 50 anos ou mais – um aumento de 16% entre 2005 e 2016. 

Isso gera mais um desafio à ação escolar: a desmobilização e a resistência à inovação. Uma das queixas são as mudanças repentinas feitas pelo Ministério da Educação, causando, a médio e longo prazo, um desgaste e desconforto de parte dos professores em relação à implementação de mudanças. 

Existe também um risco de escassez de professores, devido ao pouco interesse dos jovens pela profissão, como acontece no Brasil.  Segundo as últimas conclusões do Education at a Glance, o salário está compatível com o mercado de trabalho e, no topo de carreira, até acima da média dos outros países. O que torna a formação inicial menos atraente aos jovens é a falta de vagas de trabalho. Sabendo que a tendência é o desemprego, os jovens não escolhem a carreira. 

Enfim, como nós no Brasil, Portugal tem muitos desafios e barreiras a serem superadas, mas com certeza, já avançaram muito e tem muito a nos ensinar. Vale a pena ficarmos de olho e buscarmos neste País irmão inspiração para avançarmos com mais velocidade na melhoria da nossa educação. 

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

2 respostas
  1. Bernardi Alves Vivicanan
    Bernardi Alves Vivicanan says:

    Nossa que ótimo artigo , que bom para os portugueses, moro na Ásia e
    conheço bem o desenvolvimento de Cingapura, em 4 décadas se transformou.
    Desde que nasci escuto que em 50 anos se dedicarmos a educação o Brasil
    seria uma potencia, já vivi e não vi.
    Triste realidade de nossa educação

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  2. Valdirene Mendonça Stábile Galante
    Valdirene Mendonça Stábile Galante says:

    Ótima abordagem de Renato Casagrande sobre Portugal… Bernardi precisamos crer na Educação brasileira e em quem faz Educação: professores e escola merecem atenção, vamos crer que nosso país ainda será uma potência? é preciso acreditar!!! Portugal deu importância à Educação e conseguiu que hoje pessoas da década de 70 pudessem replicar a Educação que tiveram, tendo um país promissor em seus estudos e consequentemente em outros segmentos. Assim como no Brasil, vê-se um olhar desmotivado de jovens para a área educacional, precisamos de multiplicadores de conhecimento, e a frase “é preciso olhar a escola dentro da educação” é situação necessária e urgente.

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