Por Renato Casagrande

Esta é uma pergunta que não quer – nem pode – calar! Fato é que, quanto mais pesquisas são realizadas com escolas e professores, principalmente sobre a aprendizagem dos alunos, mais nos entristecemos e nos decepcionamos com os resultados do ensino remoto iniciado em 2020. Mas, o que deu errado? Por que aquela empolgação inicial não conseguiu perdurar por mais de um ano, mesmo parecendo haver uma solução educacional que nos traria proveitos? Minha intenção, aqui, é revelar o que tenho observado e – amparado pelo muito que tenho pesquisado e estudado – até antecipara que poderia acontecer. Sim, por mais que eu tenha incentivado gestores e me dedicado com entusiasmo à preparação de professores, especialmente os da Educação Básica, para a hercúlea missão de ensinar alunos a distância, de certa forma, já esperava que os resultados não seriam nada promissores…

Não quero dizer, com isso, que o ensino não presencial, o ensino remoto e a educação híbrida não sejam eficazes ou que não funcionam na Educação Básica. Longe disso! Tenho constatado que muitas escolas e muitos professores vêm obtendo bons resultados ao praticarem um ensino remoto de qualidade e, mais recentemente, já há quem trabalhe com a educação híbrida efetiva, que gera índices satisfatórios de aprendizagem. No entanto, o número de escolas/alunos que realmente não alcançam bons resultados tem sido maior do que o dos grupos de sucesso. Por que alguns os atingem e outros, não?

A primeira resposta válida que ocorre a todos é que muitas famílias, professores e, claro, alunos sequer têm acesso à internet ou que a sua conexão é de baixa qualidade e há, ainda, os casos de equipamentos que são precários demais para cumprirem o seu papel com excelência. Tais fatos vêm associados à falta das mínimas condições para certos alunos estudarem em casa: espaço físico inadequado, ambiente familiar desfavorável, falta de apoio dos familiares e etc. consequentemente, a concentração do aluno fica comprometida e ele não tem motivação para se dedicar aos estudos.

Saber estudar não é uma competência obtida de graça: não surge espontaneamente para a grande maioria das crianças e dos adolescentes, pois é penosa, exige renúncia e demanda uma boa dose de dedicação e esforço. Por isso, os estudantes precisam ser orientados, incentivados e conduzidos por atividades que os levem à aprendizagem. Sem esses cuidados, temos visto milhares de crianças e adolescentes se perdendo pelo caminho por falta de condições adequadas para o seu desenvolvimento, o que também explica o alto percentual de alunos em situação de fracasso escolar por não terem conseguido aprender e que, por isso, abandonam a escola por um período longo de tempo ou evadem-se em definitivo.

E o que tem sido observado na outra parcela bastante significativa de alunos, aqueles que têm internet e condições de estudar em casa, cujas aulas foram transmitidas por plataformas de educação a distância e com professores que ministraram aulas com cronograma muito similar ao da escola dos tempos de educação presencial? Esses alunos aprenderam?

Importantes estudos nacionais e internacionais indicam que somente um baixo número de estudantes desse grupo conseguiu bons resultados. Muito em razão do despreparo pedagógico que alimentou uma falsa ideia: a de que os mesmos métodos e as mesmas técnicas que o professor utiliza nas aulas presenciais podem ser transplantados para o ensino remoto. Ledo engano! Dar as antigas aulas expositivas via Internet não combina com as crianças e os adolescentes de hoje. Alguém pode até dizer que dão certo para certos indivíduos; certamente, contudo, não servem para a maioria. E, como isso não funciona, fracassamos! Os sistemas estaduais, que são grandes e complexos, foram os primeiros a apresentarem soluções tecnológicas mais avançadas. Agora, contudo, são também os primeiros a constatarem seu insucesso.

O ensino remoto vem dando lugar à educação híbrida, mas ambos exigem

uma série de combinações de metodologias e tecnologias para que a aprendizagem aconteça. Não basta o professor ligar o seu computador, ter webcam com alta resolução e boa Internet; nem mesmo se ele conseguir cumprir a carga horária planejada poderá considerar que sua missão foi cumprida! Não…

O ensino remoto (que funcionou de modo emergencial) e a educação híbrida (que já está funcionado) são modalidades nas quais o professor precisa utilizar-se de múltiplos meios para que o aluno construa suas aprendizagens. Os alunos que obtiveram os melhores resultados aprenderam organizando suas rotinas, brincando, cozinhando, escrevendo e desenvolvendo muitas atividades ´mão na massa´, planejadas, organizadas e promovidas pelos professores. As atividades exitosas foram muito além das aulas transmitidas por plataformas on-line, pois tecnologia é simplesmente um meio.

Como mídia, tecnologia não dá resultados se não houver ótimos professores planejando, organizando, preparando, curando e ministrando as aulas, orientando os alunos para uma aprendizagem por intermédio de metodologias ativas e novas técnicas, que sejam adequadas a estes novos tempos e novos desafios, às novas exigências e aos novos alunos.

Concluo a minha reflexão, então, dizendo: quem fracassou e perdeu foi quem acreditou que fazer uso de tecnologia associada à Internet para mera transmissão de aulas remotas pelo computador seria garantia de um nível adequado de aprendizagem. Esses, erraram feio!

Acertaram os gestores e as escolas que apostaram nos professores, preparando-os para o novo momento da Educação, incentivando-os diariamente, pois o momento pode até prescindir de novas tecnologias, mas jamais poderá abrir mão dos professores que se desdobram para fazer diferente, fazendo melhor.

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

O texto original foi publicado pelo jornal Estadão, disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-fracasso-do-ensino-remoto-no-brasil-onde-erramos/

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