Por Profa. Cristiamari Carvalho

Geralmente somos motivados a duvidar das nossas certezas em um momento de crise, porque somos provocados a fazer o movimento da mudança, de arriscar e experimentar. A minha primeira crise profissional foi gerada logo após minha formatura, em 1993, quando o Brasil vivenciou o primeiro impeachment do então Presidente da República. A indústria estava com péssimos indicadores de desempenho, a economia nacional registrava hiperinflação, a taxa de desemprego era altíssima, enfim, as perspectivas profissionais para uma recém-formada eram muito ruins. 

Minha melhor oportunidade profissional, um ano após me formar em Química Industrial, surgiu com a escassez de professor de Química nas redes pública e privada. Recebi um convite que inicialmente caiu como um desastre: participar de uma entrevista de emprego em uma escola privada de Curitiba para lecionar essa disciplina. Porém, a crise traz a necessidade de olharmos caminhos não planejados, de abrirmos portas que ainda não temos a chave. Ainda bem que eu tive a coragem de entrar. 

Um dos principais fatores que me fizeram escolher a graduação em Química Industrial aos 18 anos foi o de não seguir a carreira dos meus pais, ambos professores. Eu conhecia muito bem a rotina de um professor – dentro e fora de casa. Preparar aula, corrigir provas, lançar nota, preencher diário de classe, entre outras atividades extraclasse que limitavam nossas viagens e feriados, passeios no final de semana e até mesmo a convivência entre pais e filhos. Além disso, greves e falta de pagamento também eram constantes naquela época. 

Mas, como posso explicar essa contradição de não escolher a profissão de docente na minha formação, e, atualmente ter 25 anos de carreira profissional como professora e gestora escolar de sucesso? O que parecia impossível aos meus 18 anos, hoje, aos 48, é propósito de vida. 

Na crise, aceitei abrir essa porta. Em 1994, assumi minha primeira classe com alunos do Ensino Médio Supletivo, lecionando para jovens e adultos do ensino noturno. Eram somente 3 turmas no primeiro semestre. Que paixão avassaladora! Esse sentimento realizador me impulsionou a naquele mesmo ano assumir mais 10 turmas no Ensino Regular e me tornar uma professora plena e realizada, sem qualquer ensaio. 

Minha mãe ainda fez uma tentativa e me perguntou no final daquele ano, quando você vai trabalhar na sua área? Mas isso é uma outra provocação que podemos conversar na próxima leitura. 

Ser professora é uma delícia. Permita-se! 

Por Josemary Morastoni

Nossa sociedade vem atravessando um momento turbulento em função da pandemia, e, este movimento atingiu em cheio a educação. Mudamos o formato das aulas, num primeiro momento, imaginando ser um plano provisório. Mas, após um ano, observamos que este movimento está mais consistente e com a tendência de permanecer. Ainda assim, não estamos com o preparo necessário e num cenário cheio de incertezas. Nesta perspectiva, vamos abordar cinco grandes desafios e as estratégias para se sair bem dessas situações:

1. A comunidade escolar deposita todos os votos de esperança no gestor

            Como já sabemos, o trabalho do gestor escolar não é uma tarefa fácil em momentos de normalidade, e, com o cenário atual, essa complexidade se potencializou. Com todas as atribuições já conhecidas, o gestor também precisou buscar novos conhecimentos principalmente na área da saúde e estar muito alinhado com os protocolos de segurança e saúde e decretos estaduais e municipais.  Além disso, outro papel do gestor que tomou corpo neste período é o de “Salvador da Pátria” como a figura que transmite segurança para as famílias, estudantes e professores. Contudo, a grande maioria das ações que a escola executa neste período são deliberações das autoridades sanitárias e do Poder Executivo, logo, o gestor é apenas um executor destes protocolos. Portanto, ele precisa saber buscar as informações corretas, nos lugares corretos e deixar claro que é seu papel cumpri-las, e não deliberar sobre elas. Outro ponto importante, é manter seu equilíbrio psicológico, tanto para não ser cobrado por questões que transcendem suas ações, como para não se cobrar demais pelo mesmo motivo.

2. Educação e tecnologia

Neste momento, as tecnologias estão em alta na educação. Mesmo entendendo que é apenas um período, tudo indica que elas vieram para ficar, mas, tanto a estrutura quanto formação de quem atua na Educação Básica, estão sem o preparo necessário. Assim, é preciso investir em formação continuada, não apenas para sua equipe, mas também para o gestor. Conhecer novas ferramentas, como otimizá-las, custos, entre outros fatores é de suma importância para o gestor. Além disso, é importante que o gestor estimule sua equipe de professores para que busquem novos conhecimentos nesta perspectiva.

3. Comunicação assertiva

A comunicação sempre foi um ponto de atenção na gestão escolar. Mas, agora, ela está muito mais sensível. O simples fato de estarmos nos comunicando num momento de ensino híbrido, ora em momento remoto, ora presencial, em um ambiente repleto de muita tensão em virtude dos decretos e dos desafios tecnológicos, necessita grande atenção para a efetivação da comunicação. Mas não é preciso assumir mais essa missão sozinho, aqui, o gestor pode recrutar os membros da sua equipe com habilidades nesta área para lhe auxiliar na condução do processo. Ele pode utilizar, de maneira contundente a arte de delegar, que será abordado mais adiante.

4. Relação Família e Escola

Outro fator que já era uma importante atribuição do gestor, agora também está mais sensível. Com o desequilíbrio financeiro de muitas famílias, a tensão instaurada pelas aulas híbridas, a preocupação com a aprendizagem dos seus filhos, a organização logística quando se tem aula remota e não presencial, gerou uma tendência de ruptura nessa importante relação. Aqui é fundamental estreitar laços, incentivar as relações e manter a proximidade com as famílias. Mesmo que de maneira remota, o gestor deve buscar envolver e manter os pais ativos na dinâmica escolar. Recrutar as famílias para ações em momentos de descontração e lazer, mesmo que online, pode ser uma boa opção. Afinal, não se pode ter apenas momentos com as famílias quando se tem problemas com os seus filhos.

5. Evasão escolar com duplo sentido

Seja na rede pública ou privada, a evasão escolas é um movimento mais presente na realidade do gestor em tempos de pandemia, e pode ser observada sob duas perspectivas: a saída do aluno da instituição ou simplesmente o pouco movimento ou abandono das atividades escolares. A primeira perspectiva preocupa em especial o gestor da escola privada, uma vez que sem os recursos provenientes das mensalidades, a receita diminui e os problemas aumentam, enquanto a segunda perspectiva assusta também os gestores da rede pública, uma vez que com o grande número de matrículas entrando, os professores dão menos conta deste controle, ainda mais por grande parte das escolas pública, não terem retomado as atividades nem na modalidade hibrida, permanecendo na remota. Então, busque números, resultados e o panorama geral da sua situação, para buscar estratégias específicas e condizentes com a realidade da sua comunidade escolar e seus recursos.

Permeando tudo isto, emerge a arte de delegar. É preciso aprender delegar as questões da escola. Afinal, seria preciso o gestor se multiplicar por três para dar conta de tudo isso sozinho. Lembrando que delegar não é entregar simplesmente a execução de algo, e sim acompanhar, orientar, monitorar e corrigir estratégias, pois o gestor, deve gerir os processos e acompanhá-los. É importante lembrar da metáfora da corda ao delegar algo, pois, quando se delega uma atividade, damos a ponta da corda para outra pessoa, o que significa que ambos são responsáveis pela manutenção da corda sem cair, e vamos esticando, aumentando a distância, e ainda que não consigamos ver a outra ponta da corda, cada um ainda mantém a sua função, e o gestor ainda segurando a sua ponta. Delegar é a maior e mais importante atribuição do gestor, e somente com esta habilidade, conseguiremos desenvolver com assertividade todas as outras.

Por João Vianney[1] e Mayra Caiado Paranhos[2]

A coexistência de diferentes modelos de Ensino Conectado e de Educação a Distância no atendimento aos alunos da Educação Básica e da Educação Superior durante o fechamento das escolas na pandemia do Covid-19.

Em todos os países as Escolas da Educação Básica e as Instituições de Ensino Superior foram obrigadas a criar um atendimento de emergência para os alunos que estudam nos cursos pela Modalidade da Educação Presencial.

O atendimento online que começou com o uso de Plataformas para oferecer aulas remotas (ao vivo) foi a única alternativa encontrada para a continuidade do ensino-aprendizagem no Brasil após o início de recolhimento social em março de 2020.

Para os alunos e professores da educação tradicional esta foi em todo o mundo com acesso à internet a solução menos traumática e de melhor viabilidade para manter a rotina dos compromissos e atendimentos foi a do Ensino Conectado, e que não se confunde com a Educação a Distância.

O desenho adotado para a oferta do Ensino Conectado preservou a maioria das agendas, rotinas, horários de aulas e cumprimento de atividades anteriormente previstas para o Ensino Presencial, e colocou professores e alunos em agenda síncrona, conforme previamente indicado no calendário escolar e respectivas divulgações legais.

1 – O Ensino Conectado como a solução possível

Na prática, produziu-se um Ensino Mediado por Tecnologias para promover os encontros síncronos entre professores e alunos na forma de aulas ao vivo  – também chamadas de aulas remotas, ou de aulas conectadas, bem como de atividades de aprendizagem tais como sessões de reforço, atendimentos de inclusão, apresentações de trabalhos, momentos culturais ou de integração, entre outros.

Este modelo foi complementado por atividades assíncronas, offline, através de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) para consulta de materiais, recebimento e envio de listas de exercícios, deveres ou tarefas, correções, comentários, complementos, e repositório de games, quiz e de aulas gravadas ou vídeos de apoio através de uma Plataforma, um Ambiente Virtual de Aprendizagem.

Os elementos do Ensino Conectado:

 1 – Professores e alunos com Aulas ao vivo – ou Aulas Remotas; ou Aulas Conectadas;

 2 – Alunos e professores com Atividades síncronas e/ou assíncronas;

 3 – Plataforma para a realização das aulas ao vivo;

 4 – Ambiente Virtual de Aprendizagem (único ou integrado com a Plataforma) para o registro e memória da execução do Plano de Ensino, preservando de todas a aulas, frequências, atividades, entregas, tira-dúvidas, reforço e avaliações

2 – Regularidade na prestação do serviço educacional

Este modelo reuniu a essência das quatro três características essenciais da oferta educacional tradicional e denominada de “Presencial”.

A – Manteve a sessão síncrona do encontro ao vivo da aula tradicional, com professores e alunos ao mesmo tempo e num espaço coletivo, com interação de ida e volta, possibilidade de diálogos, perguntas e respostas, controle de frequência, e possibilidade ao docente de utilizar a percepção para identificar alunos com maiores ou menores capacidades ou necessidades, e diferentes estados de humor que podem sinalizar para alertas especiais.

B – Manteve a realização também síncrona para as Atividades de apoio à aprendizagem, formações complementares ao Ensino Regular, ou de sessões de Orientação ou de Atendimento Psicossocial aos alunos, e, inclusive, reunião de pais com os professores e/ou a direção da escola.

C – Recriou o Espaço Escolar no meio virtual. Para muitas escolas, colégios ou instituições de ensino superior foi inovador que foi acoplar para todos os alunos (do Ensino Presencial) um Ambiente Virtual de Aprendizagem que funciona como se fosse a Virtualização da Escola, com as funcionalidades e convivialidades típicas dos estabelecimentos de ensino. Esta circunstância nos colocou como obrigatória a “escola 24 horas”.

D – Comprovação do Serviço Educacional.

Estes elementos listados nos tópicos A; B; e C confluem para que perante os alunos e/ou seus responsáveis, os professores, gestores, técnicos-administrativos, e que perante os órgãos de Regulação e Supervisão da educação brasileira possa ser comprovada a regularidade.

 Neste modelo, para cumprir com a regularidade dos cursos da (então) Educação Presencial, professores e alunos seguiram cumprindo os mesmos contratos de trabalho, de prestação e de recepção de serviços, mantendo o cronograma e o calendário de horários para os encontros em sala de aula do semestre, os docentes, e a integralidade da carga horária previamente informada para a disponibilidade dos professores em sala de aula ou atividades relacionadas.

Este modelo de atendimento implantado no Brasil foi similar aos padrões que se universalizaram por todo planeta nas sociedades que já dispunham de uma condição de infraestrutura com acesso às conexões de dados em suas variadas formas para professores e alunos.

E, com a busca de solução para atender os alunos sem o acesso digital mínimo necessário.

Atendimento especial na exclusão digital

Quando não foi possível promover a inclusão digital, o atendimento foi realizado com envio de materiais impressos ou multimídia para a casa dos alunos, com uma frequência de entrega de novos materiais e recolhimento dos anteriores com as atividades de aprendizagem ou as dúvidas registradas.

Em muitos casos soluções originais foram encontradas no Brasil com o uso do rádio para fazer chegar ao vivo as explicações (e motivação) dos professores para alunos em zonas rurais, ou de tutorias ou tira-dúvidas por telefone, ou mesmo escritas em sistema de leva-e-traz, ou drive-thru.

Mobilização em tempos diferentes nos setores Público e Privado

Uma observação relevante a ser registrada é que os tempos de resposta para a mobilização das instituições de ensino criarem as condições de retomada do calendário letivo com efetivo atendimento docente aos alunos foram muito diversos no país.

No Ensino Superior as IES privadas estabeleceram uma jornada de ativação para oferecer Ensino Conectado aos alunos dos cursos presenciais em até sete dias, em média. Na Educação Básica privada o início do Ensino Conectado aconteceu em até duas semanas.

Por outro lado, dentre as 69 universidades federais, apenas 11% delas tinham retomado as atividades por Ensino Conectado passados dois meses desde o lockdown no mês de março.

Nas Escolas Públicas das redes estaduais e municipais o tempo de resposta sofreu variações extremas. Ora em função de expectativas de que o ciclo de interdição das escolas seria curto, o que postergava naturalmente a adoção de medidas para o Ensino Conectado, ora em razão de diagnósticos em que uma grande parte do alunado não teria as condições de acesso a dispositivos e de conexão, o que levava à uma posição de não atendimento a todos.

Porém, estas duas equações que levaram meses sem uma saída positiva para os alunos não foram impeditivas para a ação imediata de muitas Secretarias Estaduais e Municipais de Educação. Em abril de 2020 diversas Redes Públicas iniciaram com o Ensino Conectado e com ações de complementação offline para os estudantes em situação de exclusão digital.

Na metade do segundo semestre de 2020 começou a ganhar força nos fóruns de discussão da educação de que o conceito de universalização da Educação Básica exige que um Tablet e a conexão à internet deveriam ser intrínsecos aos alunos da Escola Pública já no primeiro semestre de 2021.

3 – O que é o Ensino Híbrido?

A legislação brasileira está organizada em duas torres, duas verticais distintas e denominadas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional como Educação Presencial, de um lado, e de Educação a Distância do outro. Na letra da Lei não existe o “Ensino Híbrido”.

A origem da expressão do Ensino Híbrido aplicada à educação está localizada em 2013, em artigos do Instituto Christensen[1], em que assim denomina o regime de escolas que passam a oferecer aos alunos uma combinação da educação presencial (aulas, atividades, convivialidade, práticas)  com atividades online (síncronas ou assíncronas).

O Instituto Christensen sustenta que o Ensino Híbrido veio para ficar, justificando que Um híbrido é uma combinação da nova tecnologia disruptiva com a antiga tecnologia, e representa uma inovação sustentada em relação à tecnologia anterior. 

O Ensino Híbrido funciona?

O apoio para legitimar que o Ensino Híbrido veio para ficar surgiu em 2012 nos Estados Unidos, quando o Departamento de Educação do Governo Federal publicou um estudo que mudou os olhos do mundo sobre o uso da internet na Educação.

No final de 2010 os estudos de monitoramento da qualidade de ensino nos EUA identificaram que instituições da Educação Básica, da Educação Profissional, do Ensino Militar, e do Ensino Superior que até então “não apareciam” nas melhores posições passaram a figurar ali com regularidade.

Ao investigar o que estava acontecendo de maneira recorrente com estas instituições, para buscar o que seriam o(s) fator(es) determinantes, verificou-se que estas instituições que subiram no ranking estavam oferecendo complementações de estudos online para seus alunos do ensino presencial.

Em 2012 o Departamento de Educação dos EUA publicou o estudo Evaluation of Evidence-Based Practices in Online Learning (Avaliação de práticas de aprendizagem online baseadas em evidência)[2].

Desde então, validou-se que, quando uma instituição tradicional incorpora a seus métodos e rotinas o uso complementar de metodologia online, ela, em geral, entrega alunos que alcançam melhores resultados nos exames ao final dos ciclos correspondentes. 

Dentre os fatores que teriam contribuído para esta performance superior, na época, estavam:

  • Maior carga de leitura (textos adicionais ao do ensino tradicional);
  • Resolução de maior número de exercícios ou de situações-problema;
  • Possibilidade de acompanhamento (tutoria) fora do horário e ambiente escolar;
  • Conteúdos complementares e reforço com aulas em vídeo disponíveis 24h;
  • Uso de novas tecnologias como agente motivador;

Os estudos norte-americanos que deram a base para este cenário de melhoria de resultados na aprendizagem quando do uso complementar de metodologias online aportadas ao ensino presencial tradicional não têm o foco na “substituição” de uma modalidade pela outra.

O eixo observado foi do uso das novas tecnologias digitais e da conectividade para “adicionar” carga de estudos e de atividades, e de criar canais suplementares de interação do estudante com a escola, professores e os colegas.

É como se as escolas tivessem passado a ter uma jornada extra de estudos e de atividades para os alunos. Não houve redução ou substituição da carga didática presencial anteriormente oferecida. Houve adição.

4 – O Ensino Híbrido no Brasil

No Brasil o primeiro registro oficial com autorização para a oferta híbrida de um curso superior aconteceu em 2001, quando o Ministério da Educação autorizou pela Portaria 2253/2001 que as Instituições de Ensino Superior oferecessem disciplinas à distância para alunos de cursos superiores de graduação presencial, dentro do limite de até 20% da carga didática do respectivo curso.[3]

A oferta deveria ser feita como “opcional” aos estudantes, e preservado o critério de presencialidade para as avaliações com fins de aprovação/certificação.

Na prática o país já tinha registros de Ensino Híbrido desde 1996, quando a Universidade Federal de Santa Catarina começou a oferecer para alunos dos cursos de pós-graduação em Engenharia de Produção disciplinas online, por internet, ou disciplinas por videoconferência via satélite.

E, desde o ano 2000, em São Paulo, as Universidades Braz Cubas, e Anhembi Morumbi criaram o projeto “Sexta Free”, onde aos alunos dos cursos tecnólogos noturnos a ida ao campus na sexta-feira passou a ser facultativa, com a oferta da(s) disciplina(s) equivalentes pela modalidade da Educação a Distância.

Ou seja, na origem do Ensino Híbrido no Brasil, o que as instituições de Ensino Superior fizeram foi a substituição de uma carga didática que era dada com a presencialidade, para a oferta online, com o uso de recursos da educação a distância.

A operação não foi de “adição” de maior carga de conteúdos e de atividades, ou de maior disponibilidade de serviços aos alunos como ocorrera nos Estados Unidos, mas sim de “substituição” da mesma carga didática de uma modalidade (presencial_ pela outra (a distância).

A Legislação atual de ensino superior no Brasil permite que até 40% da carga didática de um curso de graduação presencial seja ofertada por disciplinas a distância. E, nos cursos de graduação a distância, a legislação permite que até 30% da carga didática seja ofertada por educação presencial.

No atual conjunto normativo não existe mais a preponderância no peso das avaliações “presenciais” para fins de aprovação ou certificação.

Em síntese, não existe “Ensino Híbrido” na legislação, e sim um “hibridismo” autorizado pela combinação da oferta de um determinado curso utilizando os recursos e características das duas modalidades, a da EaD, e a do Ensino Presencial.

5 – O que é a Educação a Distância

A origem do que hoje a Lei chama de Educação a Distância no Brasil começa em 1904, com os “Estudos Independentes”, através do Ensino por Correspondência, com a oferta de cursos livres, em fascículos de autoaprendizagem. Na época, ainda sem um sistema de apoio à aprendizagem, e que hoje denominamos de tutoria.

Em 1927, com as primeiras emissoras de rádio, surge a tele-educação educativa, liderada por Edgard Roquete-Pinto, com uma programação com foco em formação cultural da audiência.

Em 1939 e 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, explode o Ensino de Iniciação Técnica por correspondência, com a liderança do Instituto Monitor (1939) e do Instituto Universal Brasileiro (1942).

Além do envio de fascículos, estas duas instituições também enviam para os alunos kits de aplicação técnica, para montar e desmontar, e ferramentas para o começo da vida profissional. E, o que foi inovador, passaram a responder – pelo correio, as dúvidas dos alunos, e também a receber, corrigir exames, e enviar respostas e certificados para os alunos matriculados.

Em 1942 a Legislação Federal de educação incorpora a Educação a Distância no Artigo 91 da Reforma Capanema (Decreto-Lei 4244/1.942), permitindo aos maiores de 19 anos a possibilidade de “estudos feitos particularmente” para que prestassem exames de suficiência para obter o certificado de Licença Ginasial, sem a observância de frequência escolar.[4]

Em 1961, a 1ª Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB Lei 4024/61) amplia o disposto na Reforma Capanema, e permite aos maiores de 16 anos a obtenção do Certificado de “Madureza” (equivalente ao Ginasial, na época), também a partir de preparação livre e mediante comparecimento aos exames públicos para a suficiência. E, aos maiores de 19 anos, a obtenção do certificado “Colegial”.[5]

A Lei 5.692, de 1969 também conhecida por Acordo MEC-USAID, mantém os dispostos anteriores e inova ao colocar o nome de “Supletivo” tanto para os exames de suficiência para obter os Certificados quanto para o processo de estudos independentes ou assistidos com esta finalidade para os ciclos Ginasial e Colegial.[6]

Nesta época surgem as Emissoras de TV Educativa, e têm início o longo ciclo dos Telecursos, que eram preparatórios livres e gratuitos para quem desejasse prestar os exames de suficiência.

Surgem com os telecursos os embriões do que viriam a ser os sistemas atuais de tutoria no Brasil. Em algumas cidades e indústrias foram instalados Telecentros, locais onde as tele aulas ficavam também disponíveis numa videoteca, para serem assistidas, e professores ou monitores de apoio permaneciam para tirar dúvidas didáticas ou de procedimento para os alunos.

O Ensino Superior apenas entra em cena com a atual LDB, Lei 9.394/96, que no seu Artigo 80 estabelece a validade da modalidade para todos os níveis de Ensino, quebrando o bloqueio anterior para a oferta de cursos de graduação e pós-graduação a distância.[7]

A definição atual da Educação a Distância, como no decreto de regulamentação vigente, é a seguinte, pelo Decreto 9.057/2017:

Art. 1º Para os fins deste Decreto, considera-se educação a distância a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorra com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com pessoal qualificado, com políticas de acesso, com acompanhamento e avaliação compatíveis, entre outros, e desenvolva atividades educativas por estudantes e profissionais da educação que estejam em lugares e tempos diversos.

6 – A Educação a Distância funciona? Os alunos aprendem?

Os resultados mais recentes do ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), nas edições de 2019 e 2018, têm mostrado uma equivalência entre as notas obtidas pelos alunos dos cursos de graduação presencial e as notas obtidas pelos alunos dos cursos de graduação a distância.

 De acordo com os dados oficiais do INEP, os resultados são os seguintes:[8]

Comparativo ENADE entre EaD e Presencial
AnoCritérioEADPresencial
  2019Formação Específica41,1842,63
Formação Geral33,9237,54
  2018Formação Específica41,7741,77
Formação Geral43,8044,51

Importa destacar que nas edições do ENADE o tamanho das turmas de alunos na realização do ENADE é sempre maior nos cursos de graduação a distância. Em 2019 a turma média dos cursos presenciais foi de 44 alunos, contra 113 na Educação a Distância.

Outra característica diferenciadora entre as modalidades é a faixa etária do alunado. Na EaD a média de idade nos ingressantes é sete anos mais alta que a dos alunos da Educação Presencial. Já foi maior esta distância, que vem caindo a cada nova edição do Censo da Educação Superior.

6 – O Crescimento da EAD

A expansão da modalidade entre os ingressantes do Ensino Superior é crescente nos últimos 15 anos, como mostra o gráfico do Ministério da Educação na divulgação do Censo de 2019:[9]

Esta outra forma de visualização mostra que aconteceu em 2019 o fenômeno da inversão na proporção de calouros no país, com os novos alunos da EaD superando a quantidade de novos estudantes na modalidade do Ensino Presencial no setor privado.

O MEC estimava que em 2020 é que seria alcançada a maioria de calouros pela EaD. No entanto, o “ponto de virada” aconteceu em 2019, sendo que em 2020, com a Pandemia do novo Coronavírus em cena, em com as restrições do isolamento para o funcionamento do Ensino Presencial, ocorreu uma aceleração no mercado para as matrículas na graduação a distância.

Com o impacto deste fenômeno, em 2020 a proporção de novos ingressantes no Ensino Superior deve ficar na faixa de 55% a 65% de novos ingressantes pela modalidade da EaD.

7 – Restrição da EAD para a Educação Básica

A LDB limitou em sua origem o uso da modalidade da educação a distância apenas para situações excepcionais para atender aos menores de 18 anos, deixando expresso em diversos artigos as situações em que tal poderia ocorrer. Tal como está expresso no Artigo 32:

§ 4º – O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação para a aprendizagem ou em situações emergenciais.

E, a Pandemia, diante de uma situação emergencial, pautaram-se desta forma o Conselho Nacional da Educação, o Ministério da Educação; os Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, e as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem no Distrito Federal para permitir a continuidade dos estudos através de uma Educação Mediada por Tecnologias, e que resultou no Ensino Conectado, com as características já descritas.

8 – Ensino Conectado (ou Ensino Remoto) não significa Educação a Distância

Não aconteceu, nesta transição durante o atual ciclo da Pandemia no Brasil uma migração da Educação Presencial para a Educação a Distância, mas, tão somente uma transposição do essencial do ensino presencial para o Ensino Conectado.

Antes da crise do Covid-19, e desde 1995 a sociedade brasileira já tinha na rotina das Instituições de Ensino Superior uma outra forma de Ensino e Aprendizagem, denominada na legislação por Educação a Distância, cuja principal característica é ser predominantemente assíncrona, onde cabe ao aluno a dedicação integral do tempo de estudo, de maneira autônoma na maior parte do tempo, podendo o mesmo recorrer a professores tutores para tirar dúvidas e realizar avaliações e receber correções.

Dentre os modelos correntes de educação a distância no Brasil, para os cursos de graduação, no Ensino Superior, mais de 70% dos alunos estão matriculados em cursos com oferta preponderantemente assíncronas, em modelos denominados de EaD Online, ou de Universidade Virtual.

Os demais 30% estão matriculados em cursos de graduação a distância em que, na média, uma vez por semana, os alunos assistem/participam de uma aula vivo, com duração variável de uma hora e meia e de até duas horas e meia. Sendo esta a única interação síncrona, de “aula ao vivo”.

No restante da semana o aluno pratica uma aprendizagem autônoma, podendo recorrer a um tutor ou ao grupo de colegas para tirar dúvidas.

A carga didática média semestral nos cursos de graduação a distância é de 400 horas.  Considerando 20 semanas letivas, os alunos – nestes modelos em que ocorre a aula ao vivo – têm entre 30 horas a 50 horas de sincronicidade dos alunos com o professor ou tutor.

Isto é completamente diferente do modelo de Ensino Conectado (com aulas remotas ou aulas ao vivo) estabelecido no país como solução para atender aos alunos que estão matriculados no Ensino Presencial.

São propostas diferentes em suas características de estruturação, no tempo de sincronicidade, na dedicação dos professores e/ou tutores aos alunos e no envolvimento institucional de suporte.

Ainda que ambas as soluções, a da EAD, e a do Ensino Conectado se utilizem de meios tecnológicos para o atendimento aos discentes, há distintas condições para estruturação de material didático, graus de responsabilidade para a condução do processo e cumprimento de atividades, e de carga de trabalho para os docentes no processo de ensino-aprendizagem.

Enquanto na Educação a Distância em sua natureza determinada há um trabalho docente e multidisciplinar prévio à oferta, estruturando materiais didáticos e atividades de aprendizagem, no modelo de um “Ensino Presencial Conectado” esta ação preliminar preparatório por uma equipe de Backoffice não acontece, ficando preservada a condição clássica da autonomia didática do professor na seleção dos conteúdos para a ementa da disciplina e na condução e/ou aplicação dos mesmos pelo próprio docente.

Não se trata de uma forma de organização da oferta ser melhor ou superior à outra. São apenas diferentes opções de acolhimento e de protagonismo dos discentes no processo de aprendizagem, e de maior diferenciação ainda no papel, desempenho e dedicação dos docentes envolvidos.

A Educação a Distância clássica caracteriza-se pelo atendimento aos discentes em tempo e espaço diferidos em relação à instituição de ensino e seus agentes técnico-administrativos e de docência ou suporte à aprendizagem. Atende tradicionalmente aos alunos sem tempo disponível para compromissos regulares diários, que não se disponibilizam para uma agenda contínua de três a quatro-horas-aula todo dia, em local determinado pela instituição.

Entre outras características afeitas aos alunos que optam pela Educação a distância estão a aptidão ou preferência para uma aprendizagem autônoma, escolhendo seus próprios horários e locais de estudo de maneira flexível, e recorrendo para ter o auxílio de professores tutores conforme a agenda oferecida pela instituição, mas não com a obrigação de fazê-lo caso não necessitem de tanto para alcançar o desempenho em aprendizagem a ser verificado nos processos avaliativos.

Não se exige pela LDB a “frequência” aos alunos da EaD, mas sim verificação autenticada de desempenho no alcance dos objetivos de conhecimento, habilidades ou aptidões.

Públicos com perfil diferenciado

A Educação Presencial tradicional, e com a alternativa atual do Ensino Conectado, para uma Aprendizagem Mediada por Tecnologia, com Aulas Síncronas, é mais característica para atender a um aluno que fez a sua matrícula já orientada para um modelo de interação constante com os colegas e professores e em horários determinados, diários e recorrentes, onde se realizam as aulas, as resoluções e demonstrações, e mesmo os famosos momentos do “repete aí professor”.

É o que vem ocorrendo nas aulas em tempo real do Ensino Conectado em diversas organizações universitárias e da Educação Básica no Brasil.

A Educação a Distância na sua acepção metodológica, características de sistematização e de oferta, e mesmo na caracterização legal no Brasil, é distinta da operação emergencial que foi desenhada em algumas instituições universitárias para a continuidade do calendário letivo do Ensino Presencial.

O modelo é muito mais definido por ser uma Educação Presencial Conectada, assim como são realizadas as sessões do Poder Judiciário para ouvir testemunhas ou realizar julgamentos em modelo síncrono.

Veja a seguir os principais aspectos de diferenciação entre a Educação a Distância e o sistema aplicado na emergência do regime de restrição social para que as instituições pudessem dar seguimento no atendimento aos alunos do Ensino Presencial.

            9 – Diferenças entre Ensino Conectado x Educação a Distância

 Educação a DistânciaEnsino Conectado
1 – Ritmo dos EstudosResponsabilidade preponderante do aluno, com apoio do Tutor/DocenteOs Professores respondem pela turma de alunos e pela cadência das aulas e atividades. Ambos seguem a agenda da grade horária diária determinada no início do semestre
2 TemporalidadePredominantemente Assíncrona, com possibilidade de atividades síncronasPreponderantemente Síncrona, seguindo a mesma agenda determinada na grade horária do semestre, para todas as aulas, com a possibilidade de atividades síncronas.
3 – Controle e acompanhamento do processo de aprendizagem.Não há obrigatoriedade de frequência, conforme a legislação. Há obrigatoriedade no cumprimento das Atividades Avaliativas. Interações do aluno com os tutores a partir de situações determinadas pela necessidade dos estudantes. Aprovação por desempenho.Regime de Presencialidade obrigatória para professores e alunos, cumprindo as exigências de comparecimento nos horários de aula definidos no calendário e no cronograma do semestre. Uso de metodologias ativas em tempo real, com Registro de frequência. Aprovação por desempenho, porém com a exigência legal de frequência mínima de 75%.
4 – Interação entre os agentes do processo de Ensino-AprendizagemPreponderantemente Assíncrona Atendimento via Fórum, chat, telefone, e-mail, mídias interativas em geral, e, podendo também utilizar sessões síncronas. Em alguns modelos as IES podem incluir na agenda encontros semanais, quinzenais ou mensais com os alunos, conforme a modelagem adotada ou a natureza do curso, caso exija práticas de laboratório ou experimentações, por exemplo. Estes encontros podem ser presenciais ou realizados através de sessões síncronas via web.Preponderantemente Síncrona: Os professores estão em tempo real conectados com a turma de alunos, nos horários de aula, quando realizam as explanações, tiram dúvidas, acompanham a realização de seminários e apresentações, realizam em tempo real simulações com recursos digitais, tiram dúvidas, aplicam provas e etc. Professores e alunos trabalham em conexão síncrona, utilizando os sistemas disponibilizados pela IES, durante os períodos de aula necessários para integralizar a Carga Didática da disciplina. O atendimento do professor aos alunos é preponderante no tempo real.
5 – Características da Aprendizagem em cada modeloProfessor e aluno em tempo e espaços diferidos como característica determinante. Aprendizagem autônoma, com horários flexíveis, e necessidade de autodisciplinado e de organização pelo aluno em sua própria agenda.Professor e aluno atuando em tempo síncrono como característica preponderante para a integralização da Carga Didática. Aprendizagem caracterizada principalmente pela co-presença em ambiente virtual para as sessões de aulas, tira-dúvidas, apresentações, discussões e avaliações. Interação visual e verbal nos momentos de co-presença.
6 – Mídias utilizadasAmbiente virtual de aprendizagem, AVA, com recursos técnicos para os repositórios de materiais, interações, ferramentas de avaliação e de simulação, e recursos para conexão em tempo real, se necessário.AVA ou Plataforma Tecnológica com recursos suficientes para a realização de aulas ao vivo com o professor e alunos conectados, e todos os demais recursos para repositórios de materiais, interações, ferramentas de avaliação e de simulação, e recursos para ações off-line, quando necessário.
  7 Ações Emergenciais necessárias pelas Instituições durante a pandemia. Medidas adotadas para atender as determinações de suporte para atender aos alunos do Ensino Presencial durante o período de restrição de circulação social em função do Coronavírus Covid-19  Nas instituições já credenciadas pelo MEC para oferta de Educação a Distância no Ensino Superior não ocorreram alterações na composição de custos para o seguimento desta modalidade.Todas as instituições que optaram por dar o seguimento do calendário letivo no modelo de um Ensino Conectado, ou Ensino Mediado por Tecnologias, Ensino Remoto ou qualquer denominação similar tiveram aumento de custos nos seguintes tópicos: Aquisição, distribuição e instalação de equipamentos de áudio e vídeo, computadores, pessoal de apoio para treinamento dos professores, aumento da disponibilidade de suporte em TI para atendimento de rotina e para situações de emergência. Capacitação de servidores técnicos-administrativos para a nova realidade. Investimento em tecnologias e nos aparatos necessários à realização de transmissões online. Capacitação dos docentes para a nova realidade, assessoramento em tempo real. Investimento no acervo da biblioteca virtual devido à alta demanda. Deslocamento e atendimento aos professores em suas casas pela equipe técnica. Investimento em pessoal e material informativo pela Equipe da instituição para dar segurança comunicacional aos alunos. Investimento em segurança da Informação e de dados
8 – Controle e cálculo da Carga Didática da DisciplinaA Carga Didática na EaD é calculada a partir do dimensionamento de tempo que o aluno deverá dedicar para cumprir a jornada de aprendizagem, considerando a quantidade de tempo para a leitura e compreensão de textos, visualização e apreensão de materiais multimídias, e realização de atividades online ou presenciais, quando for o caso. Os conteúdos de referência estão em materiais didáticos previamente estruturados para a modalidade da EaD, tais como Cadernos de Estudo; Livros-Texto, Apostilas; Vídeos, Atividades de Fixação; Atividades de Controle da Aprendizagem, Games, Quiz e etc. Cabe ao aluno utilizar estes recursos didáticos para cumprir a jornada de aprendizagem, e realizar as interações determinadas com os professores ou tutores para sessões síncronas ou assíncronas para explanações, tira-dúvidas, apresentações, e etc. De maneira optativa, há modelos de educação a distância que reservam agendas semanais, quinzenais ou mensais para encontros síncronos dos alunos com a própria turma de colegas e/ou professores ou tutores. Os professores ou tutores podem complementar os materiais didáticos disponíveis, seja gravando aulas, escrevendo textos, criando jogos ou desafios de aprendizagem e publicar no ambiente de aprendizagem ou mesmo remeter aos estudantes por outras mídias. Conforme a agenda da instituição, a cada período determinado os alunos devem realizar as atividades de aprendizagem indicadas no calendário e seguir as orientações dos tutores. A depender das disciplinas os tutores podem agenda ou não web conferências, salas virtuais de plantões, e ter plantões presenciais agendados  A Carga Didática da disciplina é calculada pelo somatório dos horários de aula multiplicado pelos dias letivos indicados no calendário semestral da instituição, incluindo as etapas de avaliação. O conteúdo para cumprir a Carga Didática é ministrado pelo professor, nos horários da grade presencial estabelecida, com as aulas mediadas por tecnologia. O professor pode selecionar materiais didáticos de apoio e disponibilizar para os alunos, tais como leituras obrigatórias ou complementares, videoaulas, games, quis, reuniões de grupo extraclasse, etc. Porém, estes materiais didáticos de apoio não são substitutivos à interação síncrona realizada para cumprir a agenda da grade horária contratada. Avaliações realizadas no mesmo dia e horário de sala presencial

Contatos:

João Vianney: joao.vianney@yahoo.com.br (48) 98827 8061

Mayra Caiado Paranhos: mayracparanhos@gmail.com  (62) 98216 2496


[1] https://www.christenseninstitute.org/publications/ensino-hibrido/

[2] https://www2.ed.gov/rschstat/eval/tech/evidence-based-practices/finalreport.pdf

[3] http://cev.org.br/biblioteca/portaria-2253-2001/

[4] https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4244-9-abril-1942-414155-publicacaooriginal-1-pe.html

[5] https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4024-20-dezembro-1961-353722-publicacaooriginal-1-pl.html

[6] https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html

[7] https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1996/lei-9394-20-dezembro-1996-362578-publicacaooriginal-1-pl.html

[8] https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enade/resultados

[9] http://portal.inep.gov.br/microdados


[1] João Vianney é Diretor da Rede Enem (Curso Enem Gratuito) e consultor da Hoper Educação. Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Coordenou o Laboratório de Ensino a Distância da UFSC e dirigiu o campus Unisul Virtual, a Universidade do Sul de Santa Catarina. joao.vianney@yahoo.com.br   https://cursoenemgratuito.com.br/

[2] Mayra Caiado Paranhos é professora titular da Universidade Estadual de Goiás. É Mestre em Direito pela Universidade Federal de Goiás. Estruturou o setor e foi Pró-Reitora de Educação a Distância do Centro Universitário de Goiás. mayracparanhos@gmail.com   http://www.ueg.br/

Por Renato Casagrande, especial para Jovem Pan (03/05/2021)

Quando o tema homeschooling volta à tona, com discursos enfáticos de que é o melhor para a criança, recordo-me do depoimento dado por uma professora em uma das palestras que proferi em uma cidade do interior do Brasil. A professora assustada e em crise de pânico relatou que foi ameaçada por denunciar um caso de violência sexual contra uma das suas alunas, que na época tinha menos de 10 anos de idade. O fato só chegou ao conhecimento das autoridades por meio da escola, ou seja, a aluna confidenciou seu problema à professora, muitas vezes a única pessoa a quem ela poderia pedir socorro naquele momento.

Começo minha reflexão com essa história para lembrar que vivemos tempos difíceis. Agora em meio à crise da pandemia, o tema do homeschooling ganhou força, pois a escola obrigou-se a oferecer o ensino remoto ou a educação híbrida, já que, devido ao cenário atual, não houve possibilidade da oferta da educação na modalidade presencial.

Primeiro, precisamos lembrar que mais de 80% das crianças brasileiras estudam em escola pública e que uma parcela significativa dos pais dessas crianças não tem sequer o ensino fundamental completo. Ora, estamos então regulamentando uma educação para as classes mais privilegiadas?

A LDB, no artigo 52, deixa claro que as crianças precisam ter aulas com professores com formação superior em cursos de licenciatura, ou seja, em cursos preparatórios para o magistério. Diante disso, considerar que os pais estão preparados e aptos para atuarem como professores seria desconsiderar toda a formação dos professores, que por mais precária que seja é voltada para o preparo do profissional para trabalhar com a formação de crianças e adolescentes.

Outro ponto crítico é que além da falta de conhecimento formal da maioria dos pais ou responsáveis no que tange à formação do aluno, temos um fator preponderante contra essa modalidade de ensino: a necessidade de convívio do aluno com a sociedade e com a comunidade. Muito além dos vizinhos e familiares, a criança precisa se comunicar com outras crianças que tenham uma formação diferente, crenças diferentes, pensamentos e ideologias diferentes para que ela possa desenvolver seu pensamento crítico e complexo e, assim, transformar-se em um cidadão mais consciente e preparado para lidar com os desafios e demandas futuras.

Dessa forma, é importante que a criança tenha contato e estabeleça diálogos com pessoas que pensam diferente dos seus pais, para que possa fazer análises mais profundas sobre certas convicções, crenças e valores passados pelos pais e tidos muitas vezes como verdades absolutas.

A pandemia tem nos mostrado que muitas crianças estão adoecendo ou tendo problemas de ordem psicológica por ficarem muito tempo em casa, sem o convívio com colegas na escola e mesmo com os professores, reforçando a importância do espaço escolar, que como é um espaço público possibilita que grande parte de nossas crianças e jovens possam exercitar a sua cidadania. Desenvolvendo a consciência de direitos e deveres, individuais e coletivos, e pela progressiva autonomia e autodisciplina dos alunos.

Outro fator a ser ponderado é que não se pode considerar mais nos dias atuais que a avaliação da aprendizagem de uma criança se dê meramente por provas em datas pré-estabelecidas como pretendem boa parte dos defensores do homeschooling. A avaliação da criança é contínua e precisa de um olhar constante por parte dos professores e responsáveis. Não se trata apenas de obter uma boa avaliação no Enem ou no vestibular. Trata-se de obter uma boa formação para a vida. E a formação para a vida necessita de diversidade.

Embora os defensores da proposta da educação domiciliar e os diferentes projetos de leis que tramitam no Brasil prevejam fiscalizações sobre as famílias e pais que optarem por essa modalidade, sabemos que é extremamente difícil essa fiscalização, o acompanhamento e os controles sobre as atividades que as crianças estejam desenvolvendo, bem como os possíveis abusos que possam vir a sofrer.

É claro que, em muitos lugares ainda temos uma educação sofrível e que precisa urgentemente de medidas e ações severas e profundas para melhorar a qualidade do ensino brasileiro. Também temos problemas quanto à segurança nas escolas, falta de condições estruturais para os professores realizarem uma boa aula, ambiente físico muitas vezes inadequado e incompatível com as necessidades dos alunos e tantos outros obstáculos que impedem uma educação de melhor qualidade. Mas, utilizar esses argumentos para tirar a criança da escola seria o mesmo que blindar nossas casas e carros contra a violência e aceitar passivamente que isso é fato e não pode ser mudado.

Não quero ser taxativo afirmando que não devemos discutir a questão ou até a possibilidade de regulamentar parte da carga horária dos alunos na modalidade homeschooling. No entanto, acho que regulamentar a educação domiciliar, designando que a responsabilidade pela educação formal seja exclusivamente da família, em um momento em que a educação e a vida vivem numa situação de excepcionalidade pode ser um risco muito grande.

Em síntese, temos um quadro com os principais pontos favoráveis e desfavoráveis à prática da educação domiciliar ou homeschooling no Brasil.

ARGUMENTOS FAVORÁVEIS ARGUMENTOS DESFAVORÁVEIS
1. Insatisfação da qualidade do ensino no Brasil;
2. A liberdade de organização de tempo e espaço dos estudos;
3. Respeito ao ritmo do aluno e garantia de protagonismo da criança;
4. Segurança e conforto;
5. Ideologias políticas e religiosas alinhadas com os pais ou família;
6. Desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como disciplina, organização, estratégias de aprendizagem, autoestima, empreendedorismo, entre outras;
7. Proteção das crianças da prática do bullying e outras pressões sociais inadequadas;
8. Maior convívio familiar.
1.  Ausência do ensino formal adequado;
2.  Falta de socialização e integração das crianças no meio comunitário;
3.  Dificuldade de identificação de abusos e violência doméstica;
4.  Dificuldade nas avaliações de aprendizagem;
5.  Ampliação da segregação social e educacional;
6.  Aumento na evasão escolar;
7.  É uma política para poucos. A maioria das famílias brasileiras não tem condições de aplicar a educação domiciliar;
8.  Agravamento da desvalorização dos professores.

Enfim, acredito que temos muitas demandas e necessidades mais urgentes a serem debatidas e regulamentadas. Precisamos, neste momento, gastar nossa energia para transformar a escola e para promover a inclusão digital de alunos e professores. Precisamos que a escola seja o espaço de cultura, de socialização, de integração, de transformação das pessoas. Precisamos, a partir de uma boa escola, promover a mudança no mundo que tanto desejamos e clamamos, não isolando as crianças do mundo, mas ensinando-as a transformá-lo por meio de integração, da diversidade e da ação coletiva.

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

O texto original foi publicado pelo jornal Jovem Pan, disponível em: https://jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/renato-casagrande/em-tempos-dificeis-para-a-educacao-debate-sobre-homeschooling-ganha-forca-no-brasil.html

Por Renato Casagrande

Já falamos muito em avaliação de desempenho e fornecimento de feedbacks quando tratamos de liderança educacional. Esses elementos são fundamentais para alavancar o processo de mudança pessoal e organizacional, mas não são suficientes. É preciso que após essas duas etapas, uma terceira e muito importante ação, junte-se a elas. Trata-se do momento muito especial e importante para um líder e para os colaboradores de uma instituição. Estamos nos referindo ao momento de realizar o Feedforward.  

Feedforward é o processo de fornecer ideias, conselhos, sugestões e orientações para os profissionais, visando seu desenvolvimento e melhoria de suas competências. O Feedforward é considerado como um processo ou ferramenta poderosa em que o líder passa a atuar como Mentor e Coach dos seus colaboradores. 

Na função de Mentor, o líder atua como inspirador, procurando influenciar seu liderado, utilizando suas habilidades interpessoais, oferecendo assistência, apoio e recursos certos nos momentos certos. Como Mentor, o líder, após sinalizar os problemas ou desafios que seu liderado terá pela frente para mudar comportamentos, ele o aconselha como poderá promover mudanças.  

No papel de Coach, o líder atua como desafiador, ajudando as pessoas asair da sua “zona de conforto” e transpor os seus limites, acessando seus próprios recursos para atingir os resultados desejados. Nesse papel, o líder não dará respostas e não apontará caminhos, mas sim ajudará o seu liderado a encontrar os caminhos que mais se ajustam ao seu estilo e suas capacidades.  

E por fim, no processo de Feedforward, o líder ainda assessora o seu liderado na construção de um plano de ação, com foco na mudança de comportamento. A partir de um plano de ação estruturado, com objetivos e estratégias claras, é possível acompanhar as ações desenvolvidas pelo liderado no processo de mudança. As resistências diminuem, as pedras do caminho são desviadas ou retiradas e os profissionais conseguem com mais facilidade atingir seus objetivos em prol de maiores resultados si mesmos e para as instituições.

Renato Casagrande é referência nacional em gestão educacional e formação de professores. É doutorando em Educação, Mestre em Administração, Diretor Associado da Alleanza Educação, pesquisador, consultor, autor de livros, comentarista de diversos veículos de comunicação e conferencista em educação e gestão educacional. 

Por Renato Casagrande

Parece não haver dúvida que o mundo mudou muito. Mudou tanto que os pais, antes com certeza de como educar seus filhos e muito mais segurança nos resultados que obteriam nessa educação, confessam não terem mais tanta convicção.Têm grandes dúvidas se incentivam  ou não a prática de sua religião, ou o caminho que estiver mais alinhado com seus interesses e suas crenças.  

Enfim, os pais estão percebendo pouco a pouco os seus limites. É lógico que é dever da família ensinar valores, virtudes, desenvolver senso de justiça, de generosidade, mas sabemos que isso não é suficiente. A influência que as crianças e os jovens estão tendo no fenômeno da globalização está, muitas vezes, superando em partes o modelo de educação ao qual as famílias e a escola estão acostumados. Há um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia toda para educar uma criança.  

Quando era criança lembro com saudades de alguns conselhos do meu pai e, inclusive, de uma metáfora, da escada, que ele usava para mostrar as dificuldades que eu teria no futuro e como deveria me preparar para enfrentá-los. Comparava as fases da vida com os degraus. Dizia que bastava um bom preparo, energia, disposição, honestidade e vontade para vencer que eu chegaria lá. O que meu pai talvez não previsse ou se esqueceu de me avisar é que esta escada é rolante e corre no sentido inverso do que subimos. Também acredito que meu pai não previa que a velocidade desta escada aumentasse a cada período, exigindo de mim e de todos os meus colegas desta geração um esforço muito maior para galgar cada degrau. Este é o desafio nosso: preparar nossos jovens para galgarem os novos degraus. Isso exige desenvolver uma consciência mais crítica para que os jovens possam repensar e, se possível, assumir parcialmente o controle da escada. O que sentimos neste mundo é que o motor está programado para um aumento sucessivo e constante da velocidade e que ninguém mais tem a senha do sistema para mudar a programação. 

Esse é também um dilema que vivem os educadores. Preparar os jovens, desenvolvendo mais potência e mais força para subir e galgar mais degraus.

Renato Casagrande é presidente do Instituto Casagrande. É conferencista, palestrante, escritor, pesquisador e consultor em Educação, Gestão e Liderança no Ambiente Educacional. Também é autor de livros e artigos. É mestre e bacharel em Administração e licenciado em Matemática.

Por Renato Casagrande

Chamada de geração Z ou simplesmente de centennials por outros, a nova geração é realista, tem mente empreendedora, curiosidade ilimitada e é muito conectada, apesar de muitos acharem que estamos diante de uma geração alienada. Pesquisas indicam que esses jovens são mais conscientes do ponto de vista político e também muito mais questionadores, se comparados com aqueles que os precederam.  

Questionam tudo o tempo todo e não se contentam com respostas evasivas. A nossa geração foi reduzindo os “porquês” com o avançar da idade, até pela própria imposição dos pais e das respostas duras que recebíamos a cada pergunta. Tanto o modelo de educação nas famílias como na escola pouco permitiam os questionamentos. 

No entanto, essa nova realidade trouxe inúmeras dúvidas para os pais e professores quanto ao futuro dessa geração. O que os levará ao sucesso? Como prepará-los para o sucesso na vida em sociedade e na vida profissional?  

Os especialistas costumam dizer que não temos respostas à maioria das perguntas, mas que é possível antever que essas crianças precisarão, e muito, de habilidades como paciência, tolerância, humildade, resiliência, saber ouvir e tantas outras virtudes clássicas de todos os tempos. E por que essas virtudes ganham destaque agora e voltam a ser discutidas? É que há muita probabilidade de essas gerações trabalharem lado a lado, e por muito tempo, com as gerações Y, X e com as novas que estarão por vir.  

Ou seja, com as mudanças sempre mais céleres, cada vez mais gerações diferentes trabalharão juntas. Isso exige o desenvolvimento dessas competências comportamentais ou de virtudes para um êxito satisfatório no ambiente profissional e na vida em sociedade. 

Estima-se que mais de 2 bilhões de indivíduos da geração Z em breve estarão no mercado de trabalho. É muita gente que traz expectativas novas e exige uma reconfiguração social contínua. Essa entrada vai impactar, e muito, comportamentos, hábitos e posturas de todos os profissionais. 

Como já ocorreu quando da entrada dos millennials, mais uma vez a cultura das organizações sofrerá ajustes. O novo cenário exige, cada vez mais, a capacidade de fazer mais coisas ao mesmo tempo, fortalecer as relações hierárquicas mais horizontais, rever continuamente as formas de organização do trabalho e, principalmente, a comunicação. Segundo pesquisa elaborada pela consultoria de carreira Robert Half, 30% dos profissionais do mundo corporativo acreditam que a comunicação é a principal diferença entre as gerações e um dos grandes desafios para as organizações.  

Outro fato bastante importante é que cada vez trabalhamos com uma geração que costumo chamar de “propósito”. Já sentimos isso com a chegada dos millennials e veremos isso mais forte com a chegada da geração Z. Se estamos falando da geração dos “porquês”, é lógico que toda atividade, tarefa ou projeto deverá ser muito bem explicado e ter um propósito extremamente claro para que seja capaz de engajar essa meninada e obter deles excelentes resultados.  

Aqui estamos diante de um grande desafio também para os professores. Apresentar informações, conhecimentos, fórmulas, leis, conceitos sem esclarecer os motivos que estão por trás de cada aprendizagem. Por que estou aprendendo isso? Onde vou usar esse conhecimento? Isso já não causa mais motivação e, cada vez mais, irá trazer problemas ao meio educacional.  

Pesquisas da Universidade da Carolina do Norte mostram que, na dimensão pessoal e profissional, muitas das dimensões humanas estão mais fortalecidas. As novas gerações, assim como as anteriores, buscarão sempre oportunidades e espaços de aprendizagem, desafios constantes no trabalho, integração de sucesso profissional e pessoal, além de ganhos competitivos. O que mudou foi a forma de realizar essas buscas. 

Portanto, vivemos na era da inteligência volitiva. A partir dessas reflexões permeadas por análises dos comportamentos das novas gerações e os desafios que esperam os professores diante desta realidade, incluo um dado dicotômico nas compreensões sobre a percepção de professores e alunos sobre o que seja um processo de aprendizagem significativo.  

Quando perguntei aos professores do ensino fundamental II de uma escola se suas aulas eram estimulantes e despertavam a motivação e o interesse dos alunos, cheguei a um percentual surpreendente: 91% dos professores consideraram suas aulas extremamente estimulantes. Quando fiz a mesma pergunta para os alunos desses professores, ou seja, o quanto as aulas ministradas por eles são estimulantes, o percentual caiu para 58%. Vemos aí uma diferença de 33%. Como explicar esse gap? Elevada autoestima do professor? Expectativa maior dos alunos? Descompasso entre o que o professor acredita que é uma boa aula e que o aluno entende como boa aula? Exigência maior por parte dos alunos? Receio dos professores em fazer uma autoavaliação mais apurada? 

Eu diria que todos os motivos, e mais alguns, justificam essa diferença de percepção entre professores e alunos. Será que não chegou o momento de refletirmos realmente o modelo educacional que estamos usando? Será que esse modelo praticado vem ao encontro das necessidades e dos desejos do ser humano em sua essência? Em síntese, nosso modelo educacional é capaz de responder os “porquês” que naturalmente acompanham a pessoa humana como ser investigativo?  

Ou continua sendo um modelo preocupado em passar informações insignificantes, focado em fazer do cérebro um armazém de informações que ficam ali guardadas para serem simplesmente repetidas na hora de uma avaliação? Se for esse último motivo, precisamos urgentemente ter a humildade de nos rever como profissionais da educação, sob pena de ficarmos sempre mais para trás em relação ao contexto e ao que buscam e precisam as novas gerações. 

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

Por Renato Casagrande

A revista Veja, há algum tempo, divulgou uma pesquisa que afirmava que professores brasileiros, 94% dos da rede particular e 60% da rede pública, consideravam a escola atual como ótima ou boa. Já o índice de pais da rede privada que consideram a escola boa ou ótima foi de 92%. Neste mesmo levantamento, a maioria justificou sua avaliação afirmando que a escola particular é melhor do que a pública. 

Em outra pesquisa, realizada pelo INEP, os pais de alunos da escola pública atribuiram à escola dos seus filhos uma nota média de 8,6. Perguntado aos mesmos pais sobre as razões para uma nota tão alta estes passaram a detalhar as qualidades da escola: tem professor, merenda, sala de aula e, em alguns casos, até computador. 

Ou seja, se analisarmos esses dados, a partir da avaliação de pais e professores, a grande maioria está muito satisfeita com o nosso sistema atual. Mas eu questiono: será mesmo? Será que a qualidade da educação brasileira é satisfatória? 

Não é o que mostram os resultados de avaliações como as realizadas pelo Saeb e pelo Pisa. Quando analisados, estes resultados apontam para uma verdadeira crise no sistema educacional brasileiro. Os dados do Saeb 2017, mostram que 70% dos alunos do 3º ano do ensino médio têm nível insuficiente em português e matemática. Em verdade, apenas 4% destes alunos têm o aproveitamento adequado nestas disciplinas. Além disso, em pleno século XXI, 14,3% das escolas brasileiras não possuem energia elétrica, esgoto, água e banheiro dentro do prédio, e 55,2% não possuem biblioteca ou sala de leitura. Com estes indicadores, não espanta que o Brasil figure entre os últimos colocados em todos os rankings divulgados pelo Pisa até o presente momento. 

Parece-me que precisamos de uma nova consciência social sobre o que seja educação de qualidade. Pais, professores, gestores, enfim, todos os cidadãos precisam desconstruir modelos ainda arraigados em suas mentes e que já não respondem mais às necessidades do contexto contemporâneo. Precisamos rever nossos modelos educacionais e desenvolver mentes capazes de pensar, de refletir, onde os estudantes sejam autores da sua história e capazes de resolver problemas sempre novos, com ética para a vida. 

Urge, portanto, rever nossos referenciais. Se não o fizermos, iremos pagar um preço alto por termos parado no tempo e, com um certo comodismo, termos influenciado negativamente na formação dos nossos filhos e alunos. 

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

Por Josemary Morastoni

Como já sabemos, uma das ações mais importantes que podem existir na gestão escolar, são as parcerias, e, dentre elas, a parceria entre escola, família e sociedade é a que vamos destacar neste texto. Podemos dizer que esta é a chave para o bom desenvolvimento tanto dos alunos, quanto da escola. 

O artigo 205 da Constituição Federal de 1988 diz: “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.  Ou seja, esta parceria além de fundamental para que um bom processo de educação se desenvolva, está prevista em nossa constituição. Por isso, a escola precisa trazer a família para sua rotina, e consequentemente as demandas sociais virão a ser absorvidas neste contexto, pois, escola e família, suportam e preparam as crianças para viver nesta sociedade, observando e atendendo as suas necessidades. 

Qual é o papel de cada um neste processo? 

O que é papel da escola e o que é papel da família? E o que fica para a sociedade como um todo? 

Isto, ainda é uma discussão muito recente, pois, por vezes, a família, defronte uma realidade de desestruturação da organização familiar, não tem essa clareza e coloca para a escola responsabilidades que na verdade são suas. Nós, os gestores, é que somos responsáveis por conduzir e clarear essas responsabilidades, precisamos de um domínio técnico e cautela para explanar e conduzir essa relação, estabelecendo um limite. Quando tratamos de valores, por exemplo, se a família não transmite uma base solida de educação em casa, os reflexos disso aparecem na escola, e, o nosso papel, não é corrigir isso sozinhos, terceirizando a educação familiar, e sim trazer a família para perto, orientar e devolver essa responsabilidade. Pois, na escola, convivemos com diferenças, temos pessoas com valores e formações distintas, é preciso respeitar o ponto de vista do próximo, o espaço e a liberdade de cada um, temos nossos direitos e deveres, é o mesmo que fazemos em nossas convivências social e profissional, a escola é um reflexo e ao mesmo tempo um local de preparação para a vida em sociedade. 

Enquanto gestores, jamais podemos permitir que a escola venha a substituir o papel da família, ou então, ditar algum padrão, pelo contrário, é preciso respeitá-los. Nosso papel é abordar diferentes realidades sociais e estimular e promover o respeito e a tolerância frente as diferenças dos valores humanos. 

Por Renato Casagrande, especial para Jovem Pan (13/04/2021)

Humildemente, como pesquisador e educador há mais de três décadas, apresento, como contribuição, 10 grandes ações que, no meu ponto de vista, precisam ser adotas imediatamente para que consigamos recuperar em parte o que perdemos e estancar a “sangria” da educação na pandemia.

O Brasil é um dos países que tem apresentado um dos mais tristes cenários na área de saúde e também na área da educação com relação aos impactos da pandemia. Estamos meio inertes e despreparados para lidar com os desafios que a covid-19 nos trouxe e nossas estratégias e ações não estão sendo eficientes e eficazes.

Na educação, são vários os estudos que apontam que precisaremos de muitos anos para recuperar a aprendizagem dos alunos. E pelo movimento observado por parte do Ministério da Educação, daqui a pouco teremos que nos render e assumir a lanterninha quando compararmos a aprendizagem dos nossos alunos com a dos demais países.

O Banco Mundial já nos alertou num relatório apresentado no mês de março deste ano que as perdas educacionais são muito mais significativas entre os alunos mais pobres, visto que esses alunos têm muito mais dificuldade de acesso à educação remota. O relatório calcula que a desigualdade de aprendizagem entre os estudantes mais ricos e os mais pobres pode alcançar uma diferença de quase três anos letivos.

O economista do Banco Mundial Ildo Lauathare nos alerta que o Brasil pode perder em um ano o que levou dez para conquistar no que tange aos avanços educacionais. Ele nos lembra que um “dia de escola aberta não compensa um dia de escola fechada. A perda que tivemos e que deveremos ainda ter será muito danosa.”

Diante desse cenário, apresento a seguir 10 grandes ações que, a partir de muitos estudos realizados, precisam ser adotas imediatamente para que consigamos recuperar em parte o que perdemos e estancar a “sangria” da educação na pandemia. Vamos a elas:

  1. É preciso implantar ferramentas e mecanismos para diagnosticar a real aprendizagem dos alunos no ano passado. É fundamental avaliar com muita propriedade o nível dessa aprendizagem de todos os alunos, com foco nos conteúdos essenciais relacionados à idade-série de cada estudante; 
  2. Faz-se necessário implantar um programa de recuperação, principalmente para os alunos que apresentarem maiores problemas no diagnóstico da aprendizagem. Devem ser unidos todos os recursos para a promoção desse programa;
  3. O currículo das escolas precisa ser revisto de forma que sejam trabalhados conteúdos essenciais, devendo ser flexibilizados, além do currículo, a carga horária e os dias letivos. O foco tem que ser nos resultados, principalmente com atenção redobrada aos alunos mais vulneráveis;
  4. Deve haver um forte investimento na infraestrutura da escola para implantação da educação híbrida, com água e saneamento, equipamentos e protocolos de proteção sanitária, principalmente para receber os alunos que não têm condições adequadas para o ensino remoto;
  5. Sugere-se implantar a educação híbrida não dividindo as turmas de forma aleatória, por exemplo, com metade da turma tendo aula presencial em um dia ou semana e metade em outra. Recomenda-se que os alunos que têm melhores condições de aprendizagem em casa ou que apresentam um nível satisfatório de aprendizagem (verificado no diagnóstico de aprendizagem) continuem com o ensino remoto e os alunos que não têm essas condições que passem a desenvolver essas atividades na escola. É uma educação híbrida que privilegiará os menos favorecidos;
  6. Os governos federal, estadual e municipal devem fazer convênios com empresas de telecomunicações para levar o ensino a todos, seja por meio de rádio, tv ou internet. Ou seja, o ensino remoto precisa ter mais qualidade e precisa contar com o uso de tecnologias mais eficazes e que atinjam quase a totalidade dos alunos;
  7. É preciso estabelecer ou reestabelecer forte conexão do aluno com a escola e da escola com as famílias. Escolas que estão conseguindo fazer isso têm apresentado resultados muitos maiores de aprendizagem dos alunos do que as que não o fazem. Devem ser feitas amplas campanhas para incentivar essa conexão e relação;
  8. É fundamental melhorar as condições de aprendizagem em casa, seja por fornecimento de internet e equipamentos para os alunos e professores ou apoio e orientação aos pais, entre outras ações que visem a melhorar o ambiente de aprendizado do aluno em casa;
  9. O professor deve receber apoio irrestrito e integral para o desempenho das suas funções. Ou seja, é preciso rever todas as condições, desde o preparo e planejamento da aula até a execução, correção e avaliação das atividades desenvolvidas pelos alunos. As educações remotas e híbridas exigem muito mais do professor, principalmente em termos de tempo. Também devem ser ofertados programas de formação, focados no desenvolvimento de competências digitais e outros temas alinhados às novas exigências e tendências educacionais. É preciso garantir aos professores tecnologia nas escolas para dar suporte ao seu trabalho. E nunca esquecer de cuidar da saúde mental e bem-estar desses que hoje são, junto com os profissionais da saúde, grandes heróis da pandemia;
  10. Destacamos a importância de um olhar todo especial para o gestor educacional, seja diretor escolar ou coordenador pedagógico. Esses gestores precisam estar muito preparados para lidar com esses grandes desafios. Precisam de orientação, acompanhamento, formação e desenvolvimento para que consigam planejar, estruturar, organizar e liderar as escolas para o enfrentamento da maior crise educacional de toda a história.

Além dessas 10 ações temos mais um pedido especial, principalmente aos políticos e gestores dos sistemas educacionais, Ministério de Educação, secretarias estaduais e municipais, conselhos de educação, gestores escolares e ainda a sociedade em geral: precisamos aproveitar essa grande janela de oportunidade que esta crise nos oferece para promover uma revolução na educação. Precisamos de um sistema educacional mais eficaz e justo e essa pode ser uma das maiores oportunidades para promovê-lo. Que Deus nos ouça e que assim aconteça!

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).

O texto original foi publicado pelo jornal Jovem Pan, disponível em: https://jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/renato-casagrande/dez-medidas-urgentes-para-salvar-a-educacao-dos-danos-causados-pela-pandemia.html